A segunda parte de “A respeito de um livro de Roberto Gomes”

| Por | EM

(Esta é a segunda parte de um comentário de Antonio Manoel sobre “A guitarra de Jimi Hendrix”, o mais recente livro de Roberto Gomes. Caso você não tenha lido a primeira parte, clique aqui.)

Piano, violino e guitarra (A respeito de um livro de Roberto Gomes)

II

Violino

Costuma-se teorizar que para um conto bastam dois ou três personagens, um espaço restrito (uma casa, uma sala, um quarto, um banco de jardim, uma ponte, um pedaço de rua), um evento exemplar distribuído em três sequências: situação inicial (equilíbrio), situação medial (de desequilíbrio e tensão) e situação final (novo equilíbrio ou volta ao equilíbrio inicial); a passagem de uma situação para outra se faz por meio de um motivo dinâmico, ou seja, um acontecimento que provoca a mudança do equilíbrio para o desequilíbrio e outro que engendra a passagem da tensão para o equilíbrio final. Isso, na teoria, pois há contos que desmentem, na prática, essa simplificação.

À primeira vista, a décima segunda narrativa de A Guitarra de Jimi Hendrix, parece conter as três sequências com os motivos dinâmicos correspondentes. Temos ali dois personagens, Sara e Sérgio, um espaço restrito (uma loja  de miudezas) e o seguinte evento exemplar: um casal que mal se suporta por causa de um fato mal resolvido no passado, vê essa rotina cinzenta  ser perturbada pela intervenção de um violinista que, ao proceder à restauração de um violino que havia sido o motivo da instabilidade familiar,  faz com que o casal se reconcilie.

Entretanto, esse resumo, que ajuda a compreender a estrutura clássica do conto de ação, elimina os motivos livres, aqueles que Tomachevski considera serem  os motivos propriamente estéticos do conto.  Assim, se relermos o conto com a atenção voltada para os detalhes significativos,  nos surpreenderemos com a existência de um terceiro personagem, o próprio violino, funcionalmente um objeto mágico, tal como acontece nos contos maravilhosos. Mais ainda: descobriremos que no conto está embutida uma novela com sua nítida estrutura episódica, da qual o próprio conto faz parte: o elemento de ligação da série episódica é o violino. Que história se conta, portanto? Retomemos ”O Violino”(ps. 104-121).

Dispostos conforme a ordem cronológica, os episódios assim se resumem:  1) vicissitudes do avô de Sérgio após comprar um violino,  aprender a tocá-lo,fugir para o Rio de Janeiro com uma cantora ucraniana, e de lá voltar, depois que a cantora morre durante o parto em que nasce Helena; b)  o avô de Sérgio torna a tocar o violino em bailes e festas da cidade e forma uma família secreta com Ana Tereza, a qual, depois da morte do avô de Sérgio, casa-se com um fazendeiro  e devolve o violino para a avó de Sérgio, que guarda o violino no sótão da casa; c) depois de muito tempo, Sérgio, o neto, encontra o violino no sótão, aprende a tocá-lo e passa a fazer parte de uma banda;  d) Sérgio se enamora de Sara e com ela se casa e só eventualmente, a pedido de Sara ou em algum aniversário, toca o violino que fica em cima do guarda-roupa; e) Sérgio arruma um emprego em empresa do interior para onde se transfere, sem levar Sara que fica cuidando do armarinho que haviam comprado,  mas carregando o violino;  Sérgio volta do interior, cheio de dívidas, mas traz o violino; f) o violino passa a ficar dependurado na lateral da prateleira do  armarinho ali ficando por muitos anos; Sara e Sérgio hospedam Flávio, um parente vindo do interior de Santa Catarina, que descobre o violino, limpa-o e começa a tocá-lo; g) durante uma ausência de Sérgio, Sara faz sexo com Flávio, depois de ouvi-lo tocar;  Sérgio, ao voltar, vê o violino sobre o sofá, ameaça quebrá-lo, mas Sara não permite;   Sérgio expulsa Flávio,  e se transforma num homem desleixado; m) chega um violinista da orquestra da cidade para comprar agulha e linha e convence Sérgio a deixar que um luthier limpe e reforme o violino (neste entretempo das tentativas de convencimento,  é que Sara se lembra dos fatos até aqui enumerados). Essa intervenção do violinista constitui o motivo inicial do evento exemplar descrito mais acima.

Este resumo, tosco por certo,  nos faz imaginar um roteiro de novela, que só perceberemos se procedermos à fragmentação analítica. O cerne narrativo, porém,  seria o evento exemplar. Então, o leitor se faz duas perguntas pelo menos: 1ª)  não teríamos, no caso, contos encadeados, cuja moldura seria a narrativa sobre um violino? 2ª) o evento exemplar não seria bastante para o conto? Responderíamos “sim” à primeira pergunta; e “não”, à segunda. “Não”, porque sem os outros eventos sucessivos, ficaríamos sem a densidade dramática que, por esse meio novelesco, foi construída.

Também fique claro que esses aspectos propriamente formais não escondem outros que se costumam classificar de conteudísticos: a dispersão do artista, a fragilidade da instituição familiar, o poder inovador e revigorador da arte, o resgate de um passado menos alienante e mais participativo,  os meandros psicológicos mal disfarçados pelos gestos ou pelas atitudes do casal que centraliza essa história  multiplicada em outras histórias.

Noutro conto, “Vovó tem um amante”, muito próximo deste que comentamos graças à regressão temporal, o narrador-personagem, um engenheiro, deixa escapar algumas reflexões sobre o processo trabalhoso de escrever uma narrativa, graças a dois tipos de pressão: a complexidade da vida e as exigências do leitor. Copio três segmentos explicativos deste conto  que nos ajudam a compreender essa dupla constrição:

Vejo agora que escrever é coisa complicada, talvez mais do que ser engenheiro mecânico. Uma coisa é a vida, as coisas que acontecem umas sobre as outras, em tumulto, enquanto que ao   escrever é preciso não se embaralhar com os fatos e muito menos embaralhar a cabeça do leitor. Há uma ordem para contar o que se passa, mesmo quando não se sabe muito bem onde vamos parar e como vamos chegar àquilo que precisamos contar.” (p. 100-101)

Claro que nesse ponto aqueles que lerem o que escrevo já imaginam o que se passou, pelo que peço algum desculpa, pois um engenheiro mecânico não está preparado para desfechos surpreendentes. Meu irmão talvez fizesse melhor, mas ele deixou de escrever há uns cinco anos, desiludido com a literatura e vencido pelo que meu avô anunciava: é um país burro! Burríssimo! Ninguém lia, para que escrever? Argumentava vovô. (p. 101)

Meu irmão, sendo escritor, várias vezes me advertiu que nunca se sabe quando termina uma história. Descubro que não se sabe nem quando começa. (p. 103).

“Vovó tem um amante”, que põe em pauta as questões do sigilo e da delação que se fundem com o problema da “incorruptibilidade” infantil (não há como não evocar “Conto de Escola”, de Machado de Assis), aponta para a possibilidade narrativa da “melodia infinita” ou do acabado do inacabado (Ítalo Calvino).  Esta possibilidade se verifica em “A Ilha”  (ps. 129-141), que começa assim:

Passara a noite esparramado na poltrona, enquanto lá fora, além da janela, a cidade voltava a rugir. Amanhecia. Ele olhava a pequena caixinha de metal machucada pelo tempo e inúmeros acidentes, a única herança que lhe restara da família. Suja nas bordas por alguma espécie de pó azulado, endurecido, de aspecto doentio e nojento, lá estava ela sobre a mesa de centro. (p. 129)

Essa caixinha de metal proporcionará à personagem, entre a manhã e a noite,  uma enfiada de lembranças (os inúmero acidentes) sobre os parentes e vizinhos,   resistindo ela a todas as tentativas para abri-la.  A história poderia terminar se a personagem central levasse a cabo o propósito de se valer de um golpe de martelo a fim de descobrir o que o objeto ocultava. Mas isso não acontece, e o conto termina como começou. Pois o personagem sente que os fatos da história familiar só lhe acudiram à mente graças à misteriosa caixinha.

Essas  lembranças constituem vários embriões de contos (cerca de doze)  que não se fecham mas de cada um dos quais nascem outros contos, assim sucessivamente, sem que se desvende o conteúdo do pequeno objeto de metal.  O escritor Roberto Gomes dá a entender provavelmente que os limites entre memória e imaginação se diluem em lembranças, que dificultam as tentativas de resgatar o conhecimento dos fatos passados tais como  como realmente se deram.  Aqui talvez se simboliza que, quando o historiador se torna impotente, o contador de histórias entra em ação.

(continua)

Antonio Manoel dos Santos Silva, fevereiro de 2015

 

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